segunda-feira, 13 de março de 2017

Imaginem que estupidez

Imaginem um cidadão.
Imaginem que esse cidadão não é político nem tem qualquer cargo que possa ser confundido com um cargo político.
Imaginem que esse cidadão é advogado (mas podia ser economista ou engenheiro).
Imaginem que é um daqueles advogados deontologicamente cumpridor (não vamos agora discutir o que quererá isso dizer).
Imaginem, depois, que é um advogado que se dedica predominantemente a questões de fiscalidade ou, se preferirem, de impostos.
Imaginem, portanto, que esse advogado patrocina pessoas singulares e empresas contra a Autoridade Tributária e Aduaneira.
Imaginem, ainda, que esse advogado gosta de representar interesses legítimos de clientes relevantes, com casos complexos e interessantes que, portanto, lhe dão mais conhecimento e experiência. Às vezes lá consegue, tantas vezes nem por isso.
Imaginem, finalmente, que esse advogado trabalha numa grande sociedade de advogados, depois de já ter trabalhado numa consultora (se fosse um engenheiro ou um economista, talvez trabalhasse numa grande empresa de comunicações, de energia ou de distribuição alimentar).
Ah – desculpem – imaginem, já agora, que esse advogado vive dos rendimentos desse seu trabalho.
Imaginem, num último momento, que esse cidadão e advogado (ou engenheiro ou economista) é convidado para um cargo político com potencial exposição mediática.
Imaginem a estupidez que seria ele aceitar…

PS.1 Estão a conseguir transformar o exercício de cargos públicos num impulso de estupidez.
PS.2 O debate à volta dos impedimentos, das incompatibilidades, da revelação dos interesses (anteriores e posteriores), por parte dos titulares dos cargos públicos, é da maior relevância. Mas está demagógica e dolosamente contaminado.

PS.3 Para que não subsistam dúvidas, eu defendo – imaginem – no ministério das finanças alguém com experiência em orçamento e finanças, no ministério da defesa quem perceba de defesa e de relações internacionais, na justiça quem tenha experiência e conheça o quadro de actuação dos operadores judiciários, no ambiente quem tenha experiência e perceba de energia e ambiente, e por aí fora. E, sim, na secretaria de estado dos assuntos fiscais, alguém que perceba de impostos e que não caia lá de paraquedas sem qualquer experiência. Isso implica enfrentar dificuldades em matéria de incompatibilidade e impedimentos? Sem dúvida. Mas essas dificuldades não se resolvem no terreno da fulanização demagógica.

#Escritório

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