sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

De regresso ao Cinema Batalha

Corria o ano de 2006. Era uma noite fria, como são frias as noites de Novembro. Combinámos os três, como tantas vezes o fizemos. Eu cuidei de avisar do programa e dos bilhetes. Cada um tratou da sua vida em casa.
De repente (tive esse acesso interior) dei por mim, com as minhas irmãs, a entrar no Cinema Batalha para ir ver o Loyd Cole.
Pode parecer estranho, mas estava muito perto de ser um programa de sonho. Nós os três (os três mais velhos, como diriam os nossos pais quando eramos miúdos). A ver o Loyd Cole (som que nos acompanhou na idade das importâncias e dos protestos). No cinema Batalha no Porto (num espaço icónico da nossa cidade). Parece simples. E é. Parece fácil. Mas não é.
Talvez pairasse entre nós um certo sabor a vingança de adolescência (no nosso tempo, nas nossas circunstâncias, era o género de programa que não conseguíamos fazer). E foi mesmo confortável (sim, confortável – porque foi bom e me deixou confortado).
Parece que o Cinema Batalha vai reabrir. Fico contente. Mas eu hoje já lá «regressei». E voltou a ser confortável.

#Saladeestar

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Impressões destes dias

1. Não somos especialmente experimentados em velórios de Estado (o que tem mais de positivo do que de negativo). Há uma indefinição (ou mesmo tensão) permanente entre o formal e o informal, entre o reservado e o popular, entre a ordem e a espontaneidade. Mas se não fosse assim não éramos nós.
2. Eu não escolhia os Jerónimos. Fazia muito mais sentido na Assembleia da República. O líder e fundador do partido mais votado nas primeiras eleições livres, aquele que foi pela primeira vez primeiro-ministro com base em eleições livres, pluralistas e democráticas, um ex-chefe de Estado eleito. Um deputado constituinte. Tudo medido, era na casa da democracia que devia ser velado.
3. Há qualquer coisa de fatal nestes eventos mediáticos. Uma delas é a certeza dos directos divididos entre repórteres já sem ar e sem assunto e que recorrem aos crónicos populares de braços pousados no gradeamento de segurança. Outra, entre perguntas e respostas, é a pobreza confrangedora do diálogo em directo.
4. Imagino a importância de uma visita de Estado à Índia para um país como Portugal, e imagino, portanto, o que representaria «perder» este slot na Índia (não é esse o meu ponto). O que +e pouco democrático é só assitir a alguns o direito de opção (da opção certa, dirão).
5. Não há nenhuma contradição em ter passado uma vida inteira a criticar Mário Soares e agora reservar-lhe palavras de reconhecimento e agradecimento. É que uma coisa é o combate político, democrático e plural. Outra, anterior e mais importante, é a definição do regime que nos há-de permitir, justamente, aquele combate político livre, democrático e plural.
6. No fim do dia fica-nos a divisão de sempre. Mais exposta e por vezes primária. Mas a de sempre. Entre os que olham a liberdade como um acessório instrumental - e quem diz a liberdade diz a democracia. E os que não dispensam nem a liberdade nem a democracia. É essa a divisão. À direita e à esquerda. Mais do que entre a direita e a esquerda.

#Saladeestar
#Escritório

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Prof. Daniel Serrão


Tinha a maior das invejas do Prof. Daniel Serrão. Digo inveja porque é mais forte que admiração. E porque dizer «inveja» impressiona mais que «admiração».
Mas digo «inveja» porque o Prof. Daniel Serrão foi muito do que eu gostava de ser «quando for grande» e que, sei bem, nunca conseguirei.
Tinha a bonomia dos justos. A serenidade dos sábios. A abertura dos inteligentes. O reconhecimento dos eleitos.
Não lhe sobraram temas, disputas e adversários difíceis e exigentes. E nem sempre alinhou com os mesmos. No entanto – é aqui que se funda a minha inveja – exibiu invariavelmente uma enorme, invulgar e quase rara capacidade de preservar o respeito, a simpatia e, no fundo, a ligação aos que se encontravam do outro lado. Era um homem que «fazia pontes» sem ser um consensualista e preservando-se na sua integridade. Eu admiro esta capacidade. Desculpem, invejo.


PS. A sua dimensão merecia uma despedida em «prime time». As circunstâncias, ao não o permitirem, emprestaram uma certa serenidade à sua despedida. Também não está mal.

#Jardim

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Um ano

O primeiro ano é uma emoção. Especialmente quando é a primeira vez.
É tudo novo. As primeiras palavras. Os primeiros passos. As primeiras reacções.
A cada olhar ficamos impressionados. Desde logo por ser nosso. Depois, por já não ser bem nosso. E, claro, por já ter passado um ano.

O meu Palacete faz um ano! Continuam convidados.

PS. Assim nasci há um ano!.


#Jardim

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Candidatos à CMP

1. É natural – e porventura desejável – que o actual presidente Rui Moreira renove e reforce o seu mandato na Câmara Municipal do Porto. Para quem acompanha a vida política e pública do Porto sabe que os grandes projectos da actual vereação foram agora lançados – o Bolhão, o Pavilhão Rosa Mota, o Matadouro e o Terminal Intermodal, ambos em Campanhã – pelo que seria algo estranho que não se completassem (em bom rigor, que não se realizassem) sob a mesma gestão e a mesma presidência. 4 anos é o tempo de um mandato mas é curto para a implementação e a avaliação de um «projecto» autárquico;

2.    O apoio do CDS a Rui Moreira é natural e incontornável. Assim como o do PS, em função do acordo vigente;

3.    É essencial que haja uma oposição consistente e séria na Câmara do Porto. Não é saudável que se forme um poder demasiado hegemónico, sem exigente contraditório e sem apertada fiscalização democrática e representativa. É desse escrutínio que, em democracia, se fazem grandes presidentes e se formam grandes alternativas;

4.    Hoje foi veiculado que o PSD apresentar-se-á a eleições com Álvaro Santos Almeida. Sei quem é mas pouco mais sei. Conforme notas biográficas que consultei, seguramente que conhece e sente o Porto – terra onde nasceu, onde vive e viveu a maior parte da sua vida, onde estudou, onde leccionou, onde trabalhou e trabalha em empresas e na administração pública. Para início de conversa, diria que está muito bem;

5.    Não sou refém das «figuras públicas» ou «mediáticas». Assim de repente, conheço tantas – públicas e mediáticas – que não são nada recomendáveis (algumas chegaram assustadoramente a circular como hipótese para o Porto). Do meu ponto de vista, a 9 meses das eleições, o anonimato não é obviamente uma vantagem. Mas também não é demasiado importante;

6.    Como sempre, estarei atento. Interessam-me o conhecimento da cidade, as ideias, os projectos. E a vontade e vocação dos protagonistas;

7.    Bem-vindo Álvaro Santos Almeida. Estarei atento.

#Escritório

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Bom ano

Tudo bem. As mensagens de «Bom ano» ou «Bom ano novo» são normais e não tenho nada a dizer.
Também me adapto a um «Feliz ano», embora não goste muito da expressão «feliz» conjugada com «ano».
Agora «próspero» é que não. Não me peçam para explicar mas «próspero ano novo» soa-me a rococó e piroso.
É como quando dizem «o meu esposo» em vez do «meu marido». Marido tudo bem, esposo não gosto.
Ou uma também típica (sem querer ofender ninguém). Não digam «o dia do meu aniversário» … digam «o dia dos meus anos». E fujam da mistura explosiva «feliz aniversário». Não tem explicação mas não fica bem. É como é.
Pronto. Não vou implicar mais.
O que queria dizer era simplesmente isto: tenham todos um Bom Ano de 2017 e esqueçam lá essa coisa do próspero (que não tem mal nenhum mas eu não gosto).

#Saladeestar

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Santo cansaço

- E então, cansado?
- O primeiro sentimento não é esse. Mas sim, cansado. Dorme-se pouco. 24 de um lado, 25 do outro, como é suposto. Com a viagem pelo meio e muitas horas à mesa.
- Mas não se esteve bem, não se comeu bem?
- Ah isso comeu. E bebeu. E bem. E muito. O que, por falar em cansaço, também cansa.
- Mas todos juntos e bem dispostos?
- Todos juntos, claro. Bem dispostos? Acho que sim.
- Porquê esse acho?
- Meu amigo, a distância entre uma birra e uma gargalhada é ténue. Tanto se peguilha como se abraça. De um minuto para o outro. E então nestes dias sem rotinas ...
- Então não correu assim tão bem.
- Correu. E quanto mais dias passam mais certo é que correu bem. Ninguém se lembra das pequenas birras. E todos se lembram dos abraços e das gargalhadas. Nós e as crianças.
- Imagino a confusão!
- Imagina mas não te aflijas.
- Desculpa, só me aflige essa das birras.
- Não te aflijas. Referia-me às crianças. Que dão mais sentido mas também cansam.
- Não sei se me revejo nessa ideia estafada de que as crianças cansam.
- Sabes que com as crianças é tudo muito relativo. Connosco também, é certo, mas o mundo das crianças é diferente.
- Como assim?
- Num mesmo dia – em qualquer dia – nós experimentamos nas crianças as birras e as ternuras, os gestos comoventes e os impulsos repugnantes, a serenidade e a impaciência. No Natal e nas festas em geral não é diferente. Talvez seja até mais exagerado.
- Percebo.
- Se as crianças nos induzem ao que há de mais genuíno e puro – e por isso, pela essência, chegamos mais facilmente ao que verdadeiramente interessa – elas também nos consomem e nos desviam dessa essência. Ninguém, cansado, perante uma birra, consegue pensar na maravilha do nascimento do Menino …
- Mas as crianças não passam o dia todo em birras …
- Pois não. E não é desses momentos que nos recordamos quando recuperamos as memórias destes dias. Pensamos no vinho que bebemos, nos doces que nos marcaram, nas conversas que nos uniram, na alegria de todos, na comunhão das saudades. E ficam-nos tantas outras fotografias. A dos presentes mais certeiros e mais infelizes. As dos semblantes deslumbrados das crianças – outra vez elas. A da gruta esculpida com arte e engenho para receber o Menino Jesus e toda a parafernália que o circunda no majestoso presépio (que voltou a deslumbrar, como se fosse a primeira vez). E mais, muito mais.
- Que sorte!
- Estás a ver? Já só me lembro do que correu bem, porque é cansado que corre bem.
- Então essa expressão cândida e até beata do Santo Natal não é um bocadinho forçada?
- Não. Não é. Um Santo Natal é isto mesmo. Santo não quer dizer que seja perfeito. Santo não quer dizer que seja indolor e sem cansaço. E sem birras. E sem presentes infelizes. E sem saudades. Não. Um Santo Natal é esta quase misteriosa amálgama de momentos que, quando recordados, têm o sentido próprio da família que se reúne. E insisto – as crianças cansam, não há como negá-lo, mas tornam o Natal mais Santo.
- Olha, santo cansaço!
- É isso.

#Jardim