segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

E dia não é Natal?

Sim. Eu gostava de uma recristianização pública dos enfeites de Natal. Até porque era justo esse regresso das luzes e dos enfeites dedicados a motivos como o presépio, o Menino Jesus ou os Reis Magos. E para além de justo era até mais bonito (compreendo mal as luzes sem motivos, ou com motivos dispersos e desenxabidos, tantas vezes em tons pouco acolhedores).


Mas a introduzir melhorias eu começaria por tentar reconciliar os ditos enfeites com a luz do dia. Se à noite a coisa passa e fica disfarçada pelas luzinhas do nosso encanto, de dia o cenário é muito parecido com um acumulado de andaimes espalhados pela cidade e pendurados precariamente pelas ruas mais comerciais. Até as árvores de Natal (que à noite são mais cones de luzes) de dia são uma espécie de instalação artística de metal frio e vazio (estou a ser generoso). Até percebo o abandono das árvores naturais. Mas ao menos preencham aqueles acumulados de ferros com folhas, fitas, bolas e afins, para que de dia também seja Natal …

#Saladeestar

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Não é só por ser o Masterchef Australia

Já o disse uma vez mas a verdade é que a cada programa renovo a admiração pelo Masterchef Austrália. Em especial pelo ambiente humano que nele se preserva.
É um concurso, e por isso os concorrentes concorrem entre si e querem ganhar uns aos outros. Mas essa concorrência não resvala para a canalhice, para o mau feitio, para o baixo nível. Mesmo no tempo da standardização dos temas e dos programas de entretenimento o Masterchef Australia distingue-se pela qualidade humana dos seus apresentadores e juízes. E ela estende-se – é sempre assim com as lideranças de qualidade – aos concorrentes, ao ambiente que se vive entre eles e ao testemunho que nos vão deixando à medida que o programa avança e aparecem as eliminações (sempre fundamentadas com naturalidade e justiça).
Mas se o Masterchef Austrália é um grande programa - que é! - a adesão crescente que vai merecendo (falo por mim) vai colher directamente ao estado indigente da concorrência. Nestes dias em que um qualquer passeio pelas alternativas é aterrador (SIC Notícias, TVI 24, CM TV) - onde se exibe sem pudor a clubite primária normalmente temperada pela deselegância e desonestidade intelectual - o Masterchef Austrália é um verdadeiro oásis do zapping.

#Saladeestar

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Mário Centeno e o Eurogrupo


Nem cego nem parolo.
A escolha de Centeno para presidente do Eurogrupo não é, obviamente, desprezível e tem importância e significado.
É uma vitória do Governo português, que com a actual estrutura de suporte se afirma num dos palcos de decisão europeus mais sensíveis (e essa medalha simbólica tem o seu valor, não há como negá-lo). É prestigiante para Portugal, que tem como titular da importante pasta das finanças alguém com currículo e reconhecimento (independentemente dos equilíbrios que lhe permitiram a eleição). E pode ser relevante no plano da definição ou conformação do debate interno que cada vez mais tende a projectar na «Europa», no «Eurogrupo», no «Euro», em «Bruxelas», uma espécie de bode expiatório de muitos dos nossos males e das impiedosas limitações que nos condicionam.
Mas também não vale a pena sermos deslumbrados (ou parolos, se preferirem um adjectivo mais corriqueiro). «Termos» o presidente do Eurogrupo não é «espectacular» para Portugal ao ponto de lhe dedicarmos infindáveis fóruns radiofónicos em tom de conquista e com expressões excitadas do tipo «o Ronaldo do Eurogrupo» (imagino a cara de gozo do agora incensado Shäuble a assistir ao deleite que gerou a sua expressão). E há, naturalmente, o risco de alheamento do próprio Centeno. É que ele não vai deixar de ser o titular da importante pasta das finanças no Governo de Portugal.

#Escritório

Quanto gosto de ti?

Mais que o mar.
Mesmo naqueles dias de ondas perfeitas
Areia quente e água maravilhosa.

Mais que a neve.
Mesmo naqueles dias de espuma virgem
Sobre as montanhas abertas ao céu e ao sol.

Mais que a Floresta.
Mesmo naqueles dias lindos de Outono
De folhas castanhas, amarelas e laranja de periclitantes.

Mais que a Chuva.
Mesmo naqueles dias na cama
Ao som das pingas na janela e do fogo à lareira.

Muito mais.
Mesmo naqueles dias banais.
De mar revolto.
De neve densa.
De Floresta despida.
De chuva intensa.
De ti?
Gosto muito mais.

Gosto sempre muito mais.

#Biblioteca


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Belmiro de Azevedo


Nunca o vi, ou nunca o reconheci, por ser «o mais rico» ou «dos mais ricos». Essa circunstância – que é mesmo circunstancial – não é necessariamente sinónimo de especial virtude. E não é justo ser o epíteto no obituário de um homem como Belmiro de Azevedo que, sendo rico (era com certeza) não vivia à sombra dessa condição de privilégio.

Sempre identifiquei Belmiro de Azevedo como um homem da indústria, da gestão e dos negócios que, de facto, inovava, investia e gerava empregos. Muitos. E em Portugal.
E tendo-o feito sempre a partir do Porto e do Norte – quando, porque infelizmente se tornou numa opção mais exigente e incómoda, eram cada vez menos os que o faziam – eu tendo a valorizar mais o seu legado. Não são frases feitas. Qualquer exercício serve para demonstrar a importância social que protagonizou. Um pouco por todo o país, a Sonae e o respectivo universo empresarial representou e representa muitos milhares de postos de trabalho. Lugares qualificados (onde escasseavam) ou menos qualificados. E no Porto, em especial, quando olhamos para a nossa família, para os amigos, para os conhecidos, serão muito poucos os que passaram «à margem» da Sonae e das empresas do universo empresarial representado por Belmiro de Azevedo. Se não fomos nós próprios, foram os nossos pais, ou irmãos, ou cunhados, ou primos, ou amigos, ou simplesmente conhecidos.

Como se não bastasse, o seu ímpeto empresarial foi tão amplo, transversal e até original, que sentimos a sua marca no desenvolvimento de Portugal. Essa marca é também a do desafio. Ao seu círculo próximo de colaboradores, aos seus colaboradores em geral, aos seus parceiros, aos seus financiadores, consultores, advogados. E, de um modo peculiar, ao poder político. Não serão poucos os que, para lá do próprio potencial, devem a qualidade das suas carreiras, a sofisticação dos seus conhecimentos e a projecção profissional, àquele desafio e exigência com que sempre viveu Belmiro de Azevedo. Seja dentro seja fora da Sonae.

A partida de Belmiro de Azevedo não há-de significar o abandono desta marca de vida. Até porque o seu estilo vincado, com enormes virtudes e com defeitos (naturais e discutíveis) permanece em tantos e com diferentes expressões e notáveis inovações (mais um mérito).

A riqueza da vida de Belmiro não se expressa num qualquer saldo bancário ou numa qualquer capitalização bolsista de referência. Ela mede-se por aquela marca. De investimento. De gestão. De muitos empregos criados. De independência do poder. De resistência a Norte.

Não houve (nem há) muito quem.

#Saladeestar
#Jardim

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Ajuda ao algoritmo


Não há dia em que no meu timeline do Facebook não me sejam exibidos «sponsored» homens de meia idade e sorridentes, com direito a um «antes» e um «depois» (a parte sorridente é no «depois»), exibindo com orgulho o seu novo e frondoso cabelo (eu percebo o orgulho e o sorriso, qual Bruno de Carvalho depois da operação de emagrecimento).

Num gesto de boa vontade, vou dar uma ajudinha ao algoritmo que me selecciona.
Tenho especial «queda» para gastar mal o dinheiro (deve ser essa a parte do algoritmo que me selecciona) mas, para o bem e para o mal, não tenho ansiedades sobre a minha condição estética (já sei que devia, escusam de se desgastar com piropos desdenhosos).
E se é certo que todos temos as nossas «quedas», a do cabelo, contudo, não é uma das que me assista (até ver). E mesmo que fosse, não tenho a certeza que o tónico mais mobilizador seja a imagem sorridente do Jorge Gabriel ou do Rúben Micael (é sempre um dos dois que me é exibido como exemplo de sucesso).
Revejam lá isso.


#Saldadeestar

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Bragança calls

Eu, por exemplo (já o disse várias vezes) acharia muitíssimo bem que o Instituto Nacional de Estatística ou o Instituto do Mar e da Atmosfera (só para dar dois exemplos) se «deslocalizassem» não para o Porto mas para Bragança ou para Faro, ou para a Guarda ou Castelo Branco, ou Braga ou Beja (para início de conversa escolheria Bragança).
Ah, claro, os trabalhadores não quereriam porque têm as suas vidas em Lisboa (onde é que haviam de ter as suas vidas?). Já sei. Porque é lá que têm a casa que estão a pagar ao banco, a escola dos miúdos, a sogra e a melhor amiga.

Desculpem lá. Haverá algum movimento de «deslocalização» (detesto a palavra «deslocalização») para fora de Lisboa que mereça a aprovação dos respectivos trabalhadores?
Haverá algum movimento de «deslocalização» que cumpra os estudos de eficiência económica que reivindicam (como se estivéssemos a falar de um problema de eficiência e de estabilidade)?
Haverá algum movimento de «deslocalização» que não contrarie de frente o critério da racionalidade de custos?

Se continuamos a colocar o problema nesse plano – no dos trabalhadores, no da estabilidade, no da racionalidade imediata dos custos (tudo critérios que sensatamente devem ser medidos) – anuncio-vos já as conclusões: qualquer serviço relevante do Estado é em Lisboa e só em Lisboa que deve estar e permanecer para todo o sempre.
O problema, meus amigos, é que há mais Portugal para lá de Lisboa (circunstância que, já sei, não gera qualquer leve rasgar de vestes).
Esse Portugal para lá de Lisboa merece a atenção, o investimento e a presença equilibradamente disseminada do Estado. Porque ao lado do critério da racionalidade económica e de custos, está o do equilíbrio do território. E – não tenho dúvidas – esse equilíbrio, para quem não tem vistas curtas, é condição para a dita racionalidade económica a médio prazo.

É também isto que iconicamente se joga nesta história da mudança do Infarmed para o Porto. E seria muito interessante e simbólico mudar por exemplo um INE (ou parecido) para Bragança (depois do «EMA in Porto» eu alinhava numa campanha «Bragança calls»).

PS. E não me venham com a ideia (aparentemente sedutora) de que não faz sentido deslocalizar serviços estabilizados em Lisboa. Que o que faz sentido é fixar de início novos serviços e entidades fora de Lisboa (e só esses).
Pois eu não concordo. Primeiro porque o nosso problema não é um problema de défice de Estado (já temos que chegue). O problema é mesmo o do excesso de concentração em Lisboa. E depois porque o Estado que interessa e que representa as áreas relevantes de actuação naturalmente já existe. E, portanto, ou bem que a descentralização se faz através desses serviços que «interessam» ou não vale a pena perdermos tempo.

#Escritório