sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Sem cálculo e sem clubite


Vivo, por estes dias, muito impressionado. E uma das coisas que me tem impressionado é que perante eventos tão graves e tão profundos haja resistência ou impulsos de clubite. Estamos a falar de vidas (muitas!). Estamos a falar de meios elementares de subsistência. Estamos a falar da viabilidade de grande parte do nosso território comum. Perante isto, perante tamanha catástrofe, é absurdo medirmos as nossas reacções. É absurdo que nos preocupemos em estarmos alinhados com os «nossos», que evitemos dizer o óbvio para não afectar ou o governo ou a oposição (dependendo de quem forem os «nossos»).
Eu digo-o com todas as letras. Quero lá saber se o governo é de direita ou de esquerda. Quero lá saber se é do PS, do PSD, do CDS, do PCP ou do BE. Eu e todas as pessoas com quem vivi o inferno de domingo e da madrugada de segunda não queremos saber.
O que sabemos, sem clubite (porque somos livres para o dizer) é que quem circunstancialmente está à frente dos nossos destinos não tem (não teve comprovadamente) a capacidade para nos proteger, para nos interpretar, para nos levantar sequer.
E estamos a falar do que é absolutamente elementar.
É um governo PS (com apoio do PCP e do BE) que nos governa hoje? Se fosse um governo do PSD e do CDS eu, nas mesmas circunstâncias, diria e faria exactamente o mesmo. Porque as vidas, os meios elementares de subsistência, a viabilidade de grande parte do nosso território, não são de esquerda ou de direita. E valem mais – e antes do mais – que qualquer número de economês e politiquês, que qualquer afinidade ou alinhamento. São vidas senhores!
Claro que me manifestarei no sábado.
Sem cálculo e sem clubite.


#Jardim

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Obrigado

(com Rosarinho Montenegro Fonseca, Maria Pessanha Moreira, António Montenegro, Francisco MontenegroLuís MontenegroJoão MontenegroPedro Montenegro)
Há uma explosão de sentimentos a que não resisto. Gratidão, em primeiro lugar. Lamento e frustração, pelo que não foi possível salvaguardar. Alegria (sim, alegria) por sentir que fizemos o que devíamos ter feito, pela sorte que, apesar de tudo, tivemos, e, sobretudo, pelas vidas e bens poupados. E revolta. Muita revolta. Mas desta última ainda não é o tempo de falar.
Para já queria apenas agradecer as centenas (ou milhares, confesso que estou perdido) de manifestações de amizade, de comunhão, de solidariedade que me destinaram. Que nos destinaram.
Não consigo agradecer individualmente como mereciam (talvez vá conseguindo). Mas agradeço porque sinto quão genuínas e consoladoras foram.
Uma última palavra. Não me confundam. Não fui nenhum herói. Não fomos. Limitámo-nos a cumprir. Com a nossa terra. Com a nossa gente. Com a nossa família (de quem recebemos e a quem devemos entregar).
Só se, nos dias que correm, acharem que quem cumpre com os seus merece ser elevado a herói. Eu ainda não acho.
Obrigado a todos.


#Jardim

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Não sei por onde começar

Ao fim do dia, convocado de urgência, parto sobressaltado rumo a Tourais.
Pelo caminho cruzamos incêndios que nos ameaçam e destroem avassaladoramente. Terras, casas e matas. Tudo. Na A1. Na A25. Nas estradas nacionais que soubemos evitar.
Conseguimos chegar a Tourais. Não há acolhimento possível. Apetece chorar, mas não há tempo (nem é o tempo). Chovem fagulhas desembestadas pelo vento. Olho à volta e sinto o desespero e a impotência dos que já cá estavam. O cerco do fogo, a luz cortada, as mangueiras secas, tudo se conjuga num perfeito holocausto.

Não sabemos o que fazer. Sem água e sem ajudas, decidimos fechar a casa. Imaginamos que se isolarmos cada divisão da casa, talvez se consiga dificultar o contágio. É vã a nossa esperança, porque o fogo vem do céu. Pelas ruas o horror é completo. Começam a arder copiosamente casas no meio da povoação. Mesmo no centro ardem duas casas formando um céu impressionante de chamas poderosas.
Não há coordenação. Não há comunicações. Estamos entregues.
Desesperado (não consigo evitar repetir a palavra) tento substituir a protecção que o Estado não nos dá. Vou a casas, chamo as pessoas que humana mas irracionalmente não querem abandonar a sua "vida". Uns convencemos, outros não. Faço várias vezes o percurso Tourais-Vila Nova de Tazem, onde fica o único quartel dos bombeiros ao qual conseguimos chegar sem estradas cortadas. Os bombeiros não sabem de nada em concreto. Não sabem para onde e se devem ir. Não sabem sequer se há pessoas a evacuar. Digo-lhes que sim. Mas o que é mais necessário é um autotanque que possa acudir ao inferno cada vez mais indomável. Se ardem já 4 casas, com o vento, a chuva de fagulhas e a ausência de água e de ajuda, teremos (viveremos) o fim do mundo. No íntimo, lavado em lágrimas, cheguei a despedir-me da nossa casa. Numa das investidas desesperadas (desespero sempre) vou para o entroncamento da estrada onde estão dois militares da GNR - tão perdidos como qualquer um de nós - a cortar o último acesso a Tourais. Fico com eles, descrevo-lhes o horror de onde venho e insisto que precisamos de ajuda. Do Céu (com "C" maiúsculo) de repente avisto as sirenes dos bombeiros vindos de Vila Nova de Tazem. Era um autotanque! Salto para o meio da estrada para os "obrigar" a acudir Tourais. Virem, virem aqui! Passava das duas da manhã, era o primeiro sinal de ajuda depois de não sei quantas horas abandonados à nossa sorte e à sofreguidão imprevisível das chamas. A desgraça não foi maior graças àquela ajuda! Dentro do possível, passou a ser combatido o fogo dentro da povoação. As casas a arder, arderam na mesma. E três mais, ainda, que de tão próximas não foi possível evitar. Mas não se alastrou a toda a povoação.

Os ventos loucos e imprevisíveis começaram a ajudar também. Eram loucos e imprevisíveis, mas estavam a devolver as fagulhas aos focos de origem, onde já nada mais havia a arder. Os bombeiros perceberam que tinham de recolher as pessoas, o que também começou a correr ordeiramente. Pouco depois voltou a luz elétrica. E com a luz tivemos a água do poço que até então o motor não conseguia trazer. Dentro do caos e do desespero começámos a sentir-nos úteis e consequentes. Subíamos aos telhados, circulávamos à volta da casa e do largo à porta da cozinha. E tudo molhávamos. Não parámos. Ninguém parou.
Às 5 da manhã (mais coisa menos coisa) consegui dar uma volta à aldeia. De tão loucamente concentrado na nossa casa perdera a visão do conjunto. Cada um à sua maneira havia resistido. Inexplicavelmente, as casas haviam passado quase todas incólumes. Mesmo aquelas no meio de terrenos completamente negros de consumidos.
Já de manhã fui ver a Helena e o Fernando, e o Tonito e a Junta. Guardo os olhos embargados, os rostos extenuamos, mas a resistência e presença que sabia que não lhes faltava. E a dor porque a Aurora e o Matos não conseguiram salvar as suas casas.
Foi o horror. A impotência. A sensação de abandono. O desgosto da perda iminente. O desespero. Muito desespero. Mas afortunadamente sou dos que posso dizer que sobrevivemos. Nós e a nossa casa.
Desta vez não me contaram. Eu vi. Eu vivi.


#Jardim

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Presunções

- E então, leste a acusação?
- Li. Inacreditável.
- Mas olha que há a presunção de inocência até à condenação com trânsito em julgado …
- Sim. Há a presunção de inocência, claro. E há a presunção de que somos todos estúpidos.
- Sou capaz de acreditar mais na segunda...


#Jardim

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Sócrates e as indignações


Há dois motivos de indignação. O primeiro é a demora da investigação e do sistema de justiça. O segundo é a suspeita, traduzida em acusação, sobre um ex-Primeiro-Ministro (e relacionado com essa sua condição), dos crimes de corrupção, fraude e branqueamento.
Podem ficar indignados pelo primeiro motivo (e eu estarei convosco). Mas eu, por acaso, fico mais indignado com o segundo. Muito mais.
#Saladeestar
#Escritório

Olhem que eu acredito

Há uma certa italianização de Portugal que me agrada e que contrasta com os velhos tempos.
Sim. Eu sou do tempo em que invariavelmente víamos os outros nas grandes competições. Sou do tempo em que até jogávamos bem mas não conseguíamos ganhar, marcar, passar (quem ganhava, marcava, passava, eram as Itálias, as Alemanhas, as Holandas)....
Hoje não. Hoje nós estamos sempre lá. Somos incrivelmente competitivos. Marcamos mesmo quando parece que nem merecemos. Aparecemos fortes quando é mais preciso. Ganhamos, marcamos, passamos.
Agora a Rússia? Olhem que eu acredito.

#Saladejogos

Declaração unilateral de suspensão de uma declaração unilateral

Há os clássicos «agarra-me se não eu mato-o» ou o «fumei mas não inalei».
Há ainda a famosa «entrada de leão e saída de sendeiro»
E também serve bem aquela rábula do Ricardo Araújo Pereira a caricaturar o Marcelo Rebelo de Sousa sobre o aborto (com sim, não, sim, não).
Agora temos esta bizarria da declaração unilateral de suspensão de uma declaração unilateral.
#Escritório